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2026 - A despedida do Soberano Protetor do Brasil
Talvez estejamos usando o mapa errado.
Há anos discutimos se Lula é de esquerda, centro-esquerda ou extrema esquerda. Do outro lado, tentamos classificar sua oposição como direita, centro-direita ou extrema direita. Essa régua serve para países capitalistas normais. Para o Brasil de hoje, ela explica pouco.
O eixo real não é esquerda contra direita.
É produção contra extração.
Lula não governa como socialista. Também não governa como capitalista. Governa como soberano protetor. Uma figura antiga. Pré-capitalista. Medieval.
O soberano protetor vive muito melhor que os outros, mas justifica essa distância por uma missão moral: proteger os fracos, defender os oprimidos, arbitrar conflitos e distribuir favores. Não precisa produzir. Precisa amparar. Não precisa ser igual. Precisa parecer necessário.
Esse modelo é familiar ao imaginário católico medieval. O soberano está acima porque, supostamente, carrega uma obrigação dada por Deus: proteger os que não conseguem se proteger. A virtude não está na autonomia do cidadão. Está na dependência bem administrada.
Esse é o lulismo tardio.
Sua coalizão une dois grupos que só parecem contraditórios. De um lado, a nobreza patrimonial: gente com capital, influência ou acesso, mas cuja renda depende menos de produtividade e mais de posição — regulação, subsídio, dívida pública, oligopólio, barreira de entrada, contrato público ou proximidade com o Estado.
De outro, a massa dependente: pessoas sem capital e sem autonomia produtiva suficiente, mantidas sob proteção material e simbólica. Não são o problema moral do país. São sua ferida. O problema é o sistema que as mantém como base permanente de dependência.
No meio, há a corte.
Formada pelos que ainda se dizem socialistas e pelos que nunca acreditaram em nada além da própria mesa. Os primeiros fornecem a liturgia. Os segundos levam a prata.
Há um nome delicado para isso: extrativistas políticos. Em português claro, gente que vive de capturar renda produzida pelos outros.
Quem paga a conta é o produtor.
O vilão, no sentido original da palavra: o homem da vila, da terra, do trabalho concreto. Hoje, ele é o empresário produtivo, o agricultor eficiente, o profissional liberal, o pequeno comerciante, o trabalhador formal que paga imposto, o autônomo, o entregador, o MEI, o evangélico da periferia que trabalha, empreende e não quer ser capturado por uma proteção que chega como cobrança.
Essa gente não quer favor. Quer regra.
Por isso, uma das forças que unem a oposição a Lula é a defesa da lei e da ordem. Não como slogan policialesco. Como condição mínima para produzir, contratar, vender, investir, circular, trabalhar e viver sem depender da bênção de alguém.
Lei e ordem são o chão do capitalismo. Sem isso, o contrato vira favor. O crédito vira proteção. O imposto vira pedágio. A política vira corte.
A oposição a Lula é heterogênea porque reúne todos que perceberam que o carrapato ficou maior que a vaca. Liberais, conservadores, empresários, agricultores, trabalhadores independentes, técnicos, pequenos empreendedores e gente de esquerda que ainda acredita em produção. Não é uma coalizão bonita. É uma coalizão de sobrevivência.
Quando Lula sair de cena, essa oposição certamente se desfará. A direita voltará a ser direita. A esquerda produtivista voltará a ser esquerda. Liberais e conservadores voltarão a brigar. Como deve acontecer em uma democracia capitalista normal.
Mas a coalizão que sustenta Lula não vai apenas se desfazer.
Vai se desfacelar.
Sem o soberano, os socialistas de missa ficam sem altar. Os extrativistas ficam sem caixa. A nobreza patrimonial buscará outro protetor. A massa dependente buscará outro nome que prometa amparo. A corte descobrirá que não era movimento. Era arranjo.
E arranjo sem soberano vira saque de fim de feira.
A pergunta decisiva, portanto, não é se Lula está mais ao centro ou mais à esquerda.
A pergunta é mais simples.
Seu governo fortalece quem produz ou quem extrai?
A ser respondida enquanto nos preparamos para o último baile da ilha fiscal.
Todo o resto é fumaça de corte.
21:35